Neste sábado, dia 26 de maio, foi dia da Marcha das Vadias em várias capitais do Brasil. Estive mais uma vez por lá, já na concentração em frente ao Conic, produzindo meu cartaz. Nesse ano quis contribuir com um grito de guerra e meu estandarte já tinha rima e tudo: Não deixe o falo falar, vem vamô juntos gozar. Um garoto de uns 18-19 anos chegou em mim e perguntou o que seria o falo. Dei a explicação mais didática possível: Oras, você tem um no meio das pernas! Ele chegou a comentar que nem todos conseguiriam compreender o que seria a intenção do meu cartaz, mas o adverti que não haveria problema algum, era só chegar que rolaria o diálogo, feminismo é (re)educação. Cheguei a pedir pras meninas entoarem minha rima, consegui um canto original e serelepe para a marcha do DF por alguns instantes, mas houve certa resistência e elas logo voltaram para os mais famosos. Arrogância minha, a festa era delas. Seguimos então caminhando pelo eixo monumental.
O que me chamou atenção neste ano foi o tipo de resistência que enfrentamos. Logo no início uma corneta soou e uma confusão se iniciou. Na frente com o megafone a explicação que ia sendo replicada como microfone humano: Um homem se masturbara ali ao lado, em praça pública, para as meninas. Foi indicado que sempre que aquela corneta fosse soada seria nosso alerta. Até antes da chuva que dispersou a marcha já havia a ouvido por quatro vezes. Na última o confronto foi maior e houve voz de prisão ao opressor.
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| A jornalista Luka Franca teve problemas com o Facebook por adicionar esta foto. |
Com receio de me repetir, fiz a leitura do texto que produzi ano passado, a resistência era basicamente a mesma. No entanto, como me aprofundei nos estudos e leituras sobre o tema, percebo que posso tentar aprofundar mais a análise (ou não, pois é mais do mesmo): Trata-se da caretice e conservadorismo de sempre.
Muitos vão dizer como primeiro argumento: Não é com estereótipos de vagabundas e peitos de fora que vai se ganhar respeito. Ora, a Marcha é descontraída enquanto celebração. Ninguém vai lá apenas para lamentar as baixas pelo machismo, muito mais para celebrar a sua liberdade e pedir o básico respeito que todo ser humano carece, incluso vagabas, biscates, gays, transsexuais etc. Por quê os seios de fora são um espanto entre feministas e no carnaval é tão comum quanto condenar a vítima do estupro? Isso é coisa que tem de se mudar. O corpo feminino é lindo e jamais julgaria uma mulher por naquele momento de festa ter decido se despir. E quem fez este erro certamente não concebe a mesma liberdade ou autoconhecimento sobre seu corpo e sexualidade para se livrar das roupas e demais amarras. Isso não tira a seriedade da marcha, pelo contrário, é exatamente seu apogeu. Também é o ponto mais alto da caretice de quem foi e esperava um comportamento apropriado das mulheres que lutavam por seus direitos. E quando são mulheres que falam isso... soa quase assim: pera lá, suas biscate! a gente acabou de se submeter ao patriarcado e suas regras, tamô aqui na boa segurando a corda e vocês vem com essa baderna, vacas do inferno! Sim, há muito comodismo fora do feminismo.
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| Minha companheira de marcha deste ano foi a queridíssima amiga Danielli Viana. Foto por João Viana |
O segundo argumento é: há lutas mais sérias, nosso país está corrompido pela tal corrupção enquanto os seios estão à mostra. Mãos a obra, meu caro! Tá esperando o que? A luta das mulheres não é uma causa menor e, no fim, todas as batalhas por um mundo com justiça social e liberdade estão abraçadas. Todos sabemos que o machismo é a capitalização do amor-sexo e em uma sociedade desigual em que muitos são oprimidos por uma minoria que comanda ideologicamente, o sofrimento da mulher é um subproduto da objetificação, do outro enquanto possessão e do não compartilhamento das relações. O debate trata das relações humanas em si e de como nos percebemos enquanto sociedade, em várias esferas do pensamento-ação. Sim, há muito o que se aprender com o feminismo.
O terceiro argumento é: O radicalismo do feminismo não comunica. Sim, desde a antiguidade as mulheres souberam sacudir as estruturas do mundo falocêntrico, mas os machos sempre deram um jeito de silencia-las. Todo machão aliás sonha com um feminismo dócil em que seja fácil de contra-atacar, mas não tem rolado isso ainda porque há vários tipos de traumas e vários tipos de agressão às nossas mulheres. Parte deste argumento, porém, é relativamente válido. Se o feminismo pretende se instalar como uma contracultura deve ser muito bem debatido e pensado, do contrário pode se cair no mesmo erro de automatismo do machismo e há a postura de algumas feministas que começam a enveredar por caminhos que fariam Simone de Beauvoir tremer sua ossada. Como diz Lélia Almeida no texto A terra é má, “feminismo tem a ver com autonomia, solidariedade e coisas há muito esquecidas, e, principalmente, com espírito crítico e autonomia de pensamento”. Sim, há muito conformismo dentro do feminismo.
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| Sementes no futuro |
Todas as desculpas são reacionárias. As vadias estão aí para nos questionarmos o quanto ainda possuímos pensamentos retrógrados que nos foram impostos historicamente por equívocos dos nossos antepassados. A marcha é um gesto comunicativo, muitas vezes o problema está nos olhos de quem vê – muitas interpretações apenas apontam tabus e preconceitos internos. A hipocrisia é por vezes falta de entendimento e o movimento tá aí pra ensinar, mas principalmente pra lutar contra a violência e a desigualdade e para lançar sementes na próxima geração. Mas sobre os seios, parece que no automatismo do cotidiano vamos todos nos esquecendo de nos comunicar com o corpo, nos tornando assexuais, matando a libido e a pulsação que nos diz que estamos vivos. Na boa? Sem pessimismo, quanto mais incomodar melhor.
























